23 de mai de 2012

Luto e Recomeço (parte III)


O que realmente é morte? Nestes últimos tempos tenho me questionado se foi apenas Asher que morreu, pois parece que além de faltar um pedaço em mim, falta também esperança e expectativa. Reorganizar as coisas não tem sido uma tarefa fácil, eu sempre me perco pelo meio das bagunças das recordações. Eu sinto todos os dias que plantei a essência do meu ser em Asher e foi enterrada junto a ele, nem mesmo realizar um coreografia tenho conseguido ultimamente e eu sei que em breve já não poderei suportar o peso do meu corpo.

As pessoas que estão por perto sabem apenas dizer lamentos educadamente etiquetados e eu sei que isto não era de Asher – ele sempre tão gentil e sedutor – e eu sei que Edwin está sofrendo intensamente. Então não me resta apoio.

Meus pais e os pais de Asher e o pai de Edwin tem tentado nos auxiliar, mas como eles podem tocar em um sentimento que prolonga-se no mais misterioso local do ser: a alma. Eu gostaria que eles entrassem e fizessem uma limpeza. Eu ainda estou a escolher o que seria mais conveniente: esquecer ou lembrar; mas acontece que quanto mais perto se está da lembrança mais você fica preso.

Eu me pego abraçada a mim mesma e com a camisa aromada; eu me pego comendo no quarto – o que detestava em Asher – eu me pego olhando o céu que desde então está nublado, mas eu não vejo seu rosto. Eu sinto sua falta e ela está crescendo cada dia mais.

A vida continuou para todos os que visitaram Asher naquele dia, mas para mim, Edwin e a família de Asher tudo estacionou; até tentei começar algo, mas tudo me levou a ele. Tudo se consumou; tudo acabou, mas meu coração ainda espera por algo e não sei o que; meu corpo parece estar preparando-se para um evento – eu sinto – mas não sei o que.

É no mínimo dramático e melancólico, mas eu me sentiria bem em ter ido com ele; mas não consigo realizar isso sozinha agora. Não há vida em mim, porém eu sinto brotar em mim uma pequena luz que parece crescer dia-a-dia. O nublado do dia  me revela o fim, mas a uma relutância de esperança inserida em mim: Mas quem colocou? O que é? Afinal eu sinto e sei que meu corpo está definhando, estou morrendo, não irei sobreviver. Edwin tem me visitado todos os dias, estou cansada em resistir à proposta de contar tudo o que está me acontecendo, mas a pior coisa é que eu sei apenas o que está acontecendo de ruim, o que seria um pedacinho de bom não reconheço – é muito pequeno.

Como uma alguém pode suportar isso; perda, confusão, preocupações, saudade, dor, pesadelos. Gostaria de saber a causa de tudo isso; na verdade gostaria de estar com o menino casual e magrelo, eu não me lembro de tudo que passei com ele, mas me recordo que escrevo tudo sobre minha vida, exceto desde a morte de Asher; talvez seja útil mergulhar nas intensas lembranças eternizadas por uma caneta comprada na banca de jornal e um caderno de liquidação. Talvez seja o momento de dar um salto do luto para o recomeço.

4 comentários:

  1. A saudades nos deixa loucos.
    Gosto da forma que você descreve a dor da personagem, as palavras que você usa. Muito bom. Mais uma bela parte do conto. Quero mais *-*

    Beijos,
    Monique <3

    ResponderExcluir
  2. Todos passam por um tempo de luto,é normal e aceitável.Mas passa,e a vida segue em frente,afinal,nossa vida e felicidade não está grudada a outra pessoa.
    www.petalasdeliberdade.blogspot.com

    ResponderExcluir
  3. Estou amando a sua narrativa *-*
    Consegui visualizar completamente esta 'cena'.
    Deve ser tão difícil este momento de sair do luto, do limbo e partir para um recomeço.

    http://gabipuppe.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  4. Você descreve perfeitamente a dor e o tempo de luto da personagem: a falta de chão, a volta para as lembranças... estou gostando muito da narrativa.

    ResponderExcluir